domingo, 16 de agosto de 2009

sobre o outro...

de Davi Bogomoletz

"Quando nos relacionamos com um outro ser humano sem essa dimensão de perplexidade,
sem esse sentimento de estranheza,
sem nos darmos conta de que estamos diante de algo grande demais para conhecermos inteiramente,
nesse momento estamos nos relacionando com uma 'coisa', não com um 'ser'.
Quando queremos que esse outro seja como nós o concebemos,
esquecemo-nos de levar em conta que ele é como é (mesmo que ele próprio nunca saiba como é),
e o transformamos em coisa.
Quando alguém evita pensar e formular as próprias opiniões, adotando as de outro, transforma a si mesmo em coisa."

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

o tempo?



o tempo? quem dera...
vamos ver:

levanto cedo, vezes demais cansada
resmungo um pouco, somente um pouco
o mau humor não me veste.

no automático, preparo o café
e como um mantra recito
“café com pão, café com pão, café...”
quase o suficiente pra me deixar feliz,
mas não só –
- meus três amores aqui dormem.

cada corpo adormecido que vou olhar e cobrir
(faz um pouquinho frio, cedinho é inverno no rio de janeiro),
sorri e ressona em seu sonho de dias melhores.

hoje não foi diferente, ouvi o despertador
[como sempre, desde sempre
pensei em todas as rimas com or],
me soltei dos braços do meu amor
e ainda olhos fechados entoei o meu louvor.

pensei no tempo, tomara que dê!
que faça bom tempo, que seja ameno
valem todos os sentidos
amém!

na primeira página do jornal dia desses,
o sol negro, um dos mais longos eclipses deste século,
cobria a meia-lua lá pelos lados do continente asiático,
tão distante de nós...

ah! a felicidade dessa bela efeméride
e logo refiz as pazes com o cansaço de mais uma jornada

mas o tempo, claro,
é o que interessa
terá mesmo faltado?

em todos os meus relógios
tantos são por aqui
vejo o tempo o tempo todo
e por pouco, esbarro no coelho branco e apressado
de alice no país das maravilhas
a correr atrás do tal do tempo...

não, não sonhei
apesar da lua quase cheia

o que vi faltar
foram braços e pernas
e vontades e desejos

o tempo é presente
a escolha será futuro

domingo, 2 de agosto de 2009

pra quem é pai, pra quem é mãe, pra quem se importa

http://www.youtube.com/watch?v=RQ6n3t9sFBs

quarta-feira, 15 de julho de 2009

las cosas



¨Las cosas no son dificiles de hacer, lo dificil es colocarnos en estado de hacerlas¨.

Constantin Brancusi

domingo, 12 de julho de 2009

não sou



não sou

fato consumado
objeto de consumo
pau pra toda obra

mas não choro pitangas
pé de boi
passo o pente fino
entro com o pé direito

sem eira nem beira
fico a ver navios
durmo no ponto
e deixo o dito pelo não dito...

domingo, 5 de julho de 2009

a tua benção

abra meus olhos
para que eu possa
levantar o rosto

guarda-me
para que eu possa
estender as mãos

faça resplandecer teu conhecimento
para que eu possa
ter sabedoria

e se não for
querer demais
peço também a tua paz

quinta-feira, 2 de julho de 2009

libelo - josé régio

Libelo
José Régio, Antologia Poética


Por caminhos só rectos, não sei ir.
Nos ínvios por que vou, não sei ficar.
Suspenso do passado e do porvir,
Venho e vou!, venho e vou!, não sei parar,

Abri asas nas mãos para fugir,
E raízes nos pés para amarrar.
(Levava chão nos pés indo a subir,
Trazia céu nas mãos vindo a baixar...)

Eis, porém, que estes dons ultra-humanizam,
E os homens, meus irmãos, se escandalizam
E me espontam as asas e as raízes.

Assim se castram eles próprios, pobres!,
E tendo-se, mais vis, por mais felizes,
Se satisfazem com seus magros cobres...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

sábado, 13 de junho de 2009

comer a noite

que me sequestra
me esconde
e me devora

assim como,
como o dia
que me alimenta

como o pão
não sou só
nem uma

sou de trigo milho e arroz
sou do dia
sou toda da noite

segunda-feira, 8 de junho de 2009

sou de lua


pequena amanheço
mas vou crescendo,
me torno plena...

e, [pra você,] sempre nova

sexta-feira, 5 de junho de 2009

cabelo

cabelo

recolho minha indomável cabeleira
em um pequeno anel de borracha preto
e sem pensar lembro da frase

não prende agora não
e lembro do gesto
da mão que se aproxima
lenta e precisa
e repõe desordem na ordem

verão os que ainda não viram
tenho cabelos impossíveis
e sorrisos possíveis

até quando?

terça-feira, 2 de junho de 2009

voar


voar

podia, sim
mas partir não sei
e sonhei jamais ficar

quarta-feira, 20 de maio de 2009

desatar

não quero
nós
já dei

hoje
me desfaço
te enlaço

acesso o inacessível

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ainda hoje lembro

se acontecer de alguém atender:
por mim, digo que sou piccola
como sempre fui
e seguirei sendo [um traço]

nada além
de todas as possibilidades

então não esqueço
que tive fome
que tive faltas
que tive frio

e lembro bem,
até hoje...

do título do blog
- está escrito -
ao que sei

e ainda direi

quarta-feira, 13 de maio de 2009

amanhã recomeço

O elefante

Carlos Drummond de Andrade


Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.

Amanhã recomeço.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

oração

em mim

vive o sagrado

sem intermediários



também a sorte

bem aventuradas

as boas palavras



trago notícias

de longe:

o templo é aqui



em mim

o sagrado teu

quando em mim estás



teu segredo

quando te percebo

apenas um reflexo, um eco



em mim já não estou

sem pressa

você me ocupou

domingo, 21 de janeiro de 2007

corta

corta

cena um

o fio afiado da faca

disseca palavras

precisa-se delas

aos pedaços

corta sem machucar

costura borda

remenda o silêncio

transforma o homem

o discurso em ação

fina navalha

corda bamba

fica por dizer a vertigem dos dias

conta

diz onde está o equilíbrio

em movimento?

volta pra estrada

encontra o caminho

corta

mergulha a carne quente

mãos bocas dentes

na corrente gelada

do mar

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

lembra?

lembra?

lembra quando você disse

- agora vou virar de lado, encosta em mim

e eu tão feliz obedeci

como é bom colocar o rosto no teu cabelo

os seios roçando as tuas costas

o sexo nas tuas nádegas

pernas entrelaçadas

pés ancorados aos teus

e lentamente

beijar teu pescoço, tuas orelhas

as mãos acariciando todo o teu corpo

e tua pele macia

de cima a baixo

não esqueço o arrepio de prazer

virar-te para mim

e encontrar teus olhos inexplicáveis

ainda sem tradução

- qual esfinge

te traduzo ou te devoro? -

e mais uma vez

te comer

com minha boca gulosa

minha língua sedenta por você

só tua fonte mata a minha sede

meus dentes mordem tua carne quente

e eu bicho no cio

te quero mais

lembra?

lembra sim

adormecer no gozo

no cansaço

no abraço

dos meus braços

e da distante lua crescente

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

um domingo chuvoso de primavera

um domingo chuvoso de primavera

a vida de cada um seria a do outro

a vida possível, talvez não a desejada

a vida do outro poderia ser a de cada um

recolho fragmentos de frases soltas

cacos de vidro que dilaceram

sei que não lerás nem responderás, mas devo falar

mesmo cansada de lutar contra todas as impossibilidades

dos discursos e das ações

a grande loucura da solidão deve ser essa, falar pra ninguém escutar,

falar em silêncio na madrugada fria, chuvosa, alheia à dor

de qualquer janela onde já vivi pintei trechos do mundo onde me encontro e nas lembranças dos meus olhos revejo os diferentes verdes da vegetação, árvores de vários climas, países e estações

verde cor que gosto, verdes olhos de bruxa assim dizem, paisagens, beira-mar

verdes seriam as fronteiras em paz, na terra sem fronteiras, muros ou grades

paz

a grande solidão dos loucos deve ser essa, falar pra ninguém entender,

falar em praça pública nas tardes quentes,

o zumbido dos mosquitos e moscas ecoando sem fim

rodopia minha insensatez mal contida num invólucro tão pequeno

e o vulcão implode

um sopro de vento mais forte me leva pra longe

o mesmo vento que pode fazer mal e derrubar é o vento que soprou e sopra

em minha memória: o morro dos ventos uivantes, mary poppins, e o vento levou..., lembranças de uma infância inacabada, de uma tempestade em alto-mar, moby dick,

o velho e o mar, o mar, o mar

estranha a atração das águas pelas águas,

viscosas, doces, salgadas, placentas, espermas

não há coincidências

outra ressaca se aproxima

choverá forte e nas ondas estarei

em busca de redenção

da água vieste e à água retornarás

o pó que nos recobre se vai com a ventania

e é esse o medo atávico

- se desnudar, se descobrir, se revelar

penso (em você) sem mais pensar

lembro (de você) sem mais lembrar

já não durmo

sonho (com você) sem mais sonhar

sou o que és,

ocupo-te sem o saberes

porto seguro

onde ancorei minha minúscula embarcação

e descansei enfim

essa casca de noz que flutua

cascas partidas de nós

marinheira de tantas viagens

imaginárias e reais

navego teus pensamentos

sentidos e sentimentos

tento entender

tento, quebrada, perdida, partida...

barquinho de papel

num oceano em fúria

canto das sereias, odisséias

sigo o destino incerto

que quis assim

que me quer assim

sem pertencimento

sem merecimentos

em segredo prossigo

percorro o rio que secou, o Rio de Janeiro, o rio de outubro, o rio de antes