segunda-feira, 8 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
cabelo
recolho minha indomável cabeleira
em um pequeno anel de borracha preto
e sem pensar lembro da frase
não prende agora não
e lembro do gesto
da mão que se aproxima
lenta e precisa
e repõe desordem na ordem
verão os que ainda não viram
tenho cabelos impossíveis
e sorrisos possíveis
até quando?
terça-feira, 2 de junho de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
ainda hoje lembro
por mim, digo que sou piccola
como sempre fui
e seguirei sendo [um traço]
nada além
de todas as possibilidades
então não esqueço
que tive fome
que tive faltas
que tive frio
e lembro bem,
até hoje...
do título do blog
- está escrito -
ao que sei
e ainda direi
quarta-feira, 13 de maio de 2009
amanhã recomeço
Carlos Drummond de Andrade
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
oração
vive o sagrado
sem intermediários
também a sorte
bem aventuradas
as boas palavras
trago notícias
de longe:
o templo é aqui
em mim
o sagrado teu
quando em mim estás
teu segredo
quando te percebo
apenas um reflexo, um eco
em mim já não estou
sem pressa
você me ocupou
domingo, 21 de janeiro de 2007
corta
corta
cena um
o fio afiado da faca
disseca palavras
precisa-se delas
aos pedaços
corta sem machucar
costura borda
remenda o silêncio
transforma o homem
o discurso em ação
fina navalha
corda bamba
fica por dizer a vertigem dos dias
conta
diz onde está o equilíbrio
em movimento?
volta pra estrada
encontra o caminho
corta
mergulha a carne quente
mãos bocas dentes
na corrente gelada
do mar
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
lembra?
lembra?
lembra quando você disse
- agora vou virar de lado, encosta em mim
e eu tão feliz obedeci
como é bom colocar o rosto no teu cabelo
os seios roçando as tuas costas
o sexo nas tuas nádegas
pernas entrelaçadas
pés ancorados aos teus
e lentamente
beijar teu pescoço, tuas orelhas
as mãos acariciando todo o teu corpo
e tua pele macia
de cima a baixo
não esqueço o arrepio de prazer
virar-te para mim
e encontrar teus olhos inexplicáveis
ainda sem tradução
- qual esfinge
te traduzo ou te devoro? -
e mais uma vez
te comer
com minha boca gulosa
minha língua sedenta por você
só tua fonte mata a minha sede
meus dentes mordem tua carne quente
e eu bicho no cio
te quero mais
lembra?
lembra sim
adormecer no gozo
no cansaço
no abraço
dos meus braços
e da distante lua crescente
sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
um domingo chuvoso de primavera
um domingo chuvoso de primavera
a vida de cada um seria a do outro
a vida possível, talvez não a desejada
a vida do outro poderia ser a de cada um
recolho fragmentos de frases soltas
cacos de vidro que dilaceram
sei que não lerás nem responderás, mas devo falar
mesmo cansada de lutar contra todas as impossibilidades
dos discursos e das ações
a grande loucura da solidão deve ser essa, falar pra ninguém escutar,
falar em silêncio na madrugada fria, chuvosa, alheia à dor
de qualquer janela onde já vivi pintei trechos do mundo onde me encontro e nas lembranças dos meus olhos revejo os diferentes verdes da vegetação, árvores de vários climas, países e estações
verde cor que gosto, verdes olhos de bruxa assim dizem, paisagens, beira-mar
verdes seriam as fronteiras em paz, na terra sem fronteiras, muros ou grades
paz
a grande solidão dos loucos deve ser essa, falar pra ninguém entender,
falar em praça pública nas tardes quentes,
o zumbido dos mosquitos e moscas ecoando sem fim
rodopia minha insensatez mal contida num invólucro tão pequeno
e o vulcão implode
um sopro de vento mais forte me leva pra longe
o mesmo vento que pode fazer mal e derrubar é o vento que soprou e sopra
em minha memória: o morro dos ventos uivantes, mary poppins, e o vento levou..., lembranças de uma infância inacabada, de uma tempestade em alto-mar, moby dick,
o velho e o mar, o mar, o mar
estranha a atração das águas pelas águas,
viscosas, doces, salgadas, placentas, espermas
não há coincidências
outra ressaca se aproxima
choverá forte e nas ondas estarei
em busca de redenção
da água vieste e à água retornarás
o pó que nos recobre se vai com a ventania
e é esse o medo atávico
- se desnudar, se descobrir, se revelar
penso (em você) sem mais pensar
lembro (de você) sem mais lembrar
já não durmo
sonho (com você) sem mais sonhar
sou o que és,
ocupo-te sem o saberes
porto seguro
onde ancorei minha minúscula embarcação
e descansei enfim
essa casca de noz que flutua
cascas partidas de nós
marinheira de tantas viagens
imaginárias e reais
navego teus pensamentos
sentidos e sentimentos
tento entender
tento, quebrada, perdida, partida...
barquinho de papel
num oceano em fúria
canto das sereias, odisséias
sigo o destino incerto
que quis assim
que me quer assim
sem pertencimento
sem merecimentos
em segredo prossigo
percorro o rio que secou, o Rio de Janeiro, o rio de outubro, o rio de antes
domingo, 7 de janeiro de 2007
naquele dia
o botequim naquele dia
- parece que já faz tempo -
mas dentro de mim parece
que nunca terminou
aquela noite eu quis
que nunca tivesse fim
te amava então
como te amo hoje
madrugada:
caravelas
velas ao mar
alto mar
voltar
chegar à beira mar...
ancorar em porto seguro enfim
descobrir o caminho
de um novo mundo
plantar meus segredos
em terra firme
pra que florescessem
abricós-de-macaco
e se abrissem
em cheiro
em corpo
em palavras pra você
eu louca eu mansa
com meu amor justifico
tua presença
ao meu lado,
visconde dos incêndios
e das embarcações.
não basta
tenho visões da eternidade
na capela da santa do fogo
onde ainda peço um milagre
em praças desta república
(milagre seria
o amor
que me é negado)
a rua vazia de gentes e de sons
as flores murchas
o ar parado
não era chegada a minha hora:
no sobe-e-desce
desta gangorra
fiquei de fora
viro as costas
pra beira mar
sinto na boca
o gosto do sal
partir
sem rumo certo
nem destino conhecido
perder meu norte
meu sul
meu leste
meu oeste
alto mar
me leva
pra longe
deste botequim



